Vereador sem remuneração. Acredite, um dia já foi assim

Há quem diga que eles trabalham pouco e ganham muito, que nem todos são honestos e que não têm representatividade. Especialmente por causa de uma série de atitudes no mínimo questionáveis vistas recentemente. Mas nem sempre foi assim. Se hoje vereadores de todo o Estado lutam contra a opinião pública para aumentar seus próprios salários, nos anos 40 e 50, eles não eram nem remunerados.

Um representante desta época é o ex-deputado estadual e ex-vereador Gustavo Wernesbach, o simpático senhor de 101 anos que você vê na foto ao lado. Hoje o antigo parlamentar mora com a esposa, dona Isabel Poli, de 77 anos, no Vale da Estação, em Domingos Martins. O sotaque alemão entrega: Wernesbach é neto de germânicos que chegaram ao país em 1860.

A atividade não era remunerada e os votos, segundo ele, eram dados por confiança. Entre 1945 e 1954, Wernesbach foi vereador por Domingos Martins. Logo depois, teve três mandados na Assembleia Legislativa. “Não se gastava tanto dinheiro, acreditávamos nas pessoas. Era tudo bem diferente. Um fato comum, inclusive, era recebermos presentes da população depois de eleitos”, lembra.

Sem salário

A Câmara de Domingos Martins tinha nove vereadores no tempo de Wernesbach. E, segundo ele, todos o apoiaram em um projeto apresentado que garantia o não recebimento de remuneração. “Eu pensava o seguinte: o povo me elegeu, acreditou em mim. Para que vou ganhar dinheiro? Até porque o vereador não faz nada demais. Tínhamos que trabalhar é para diminuir os gastos do prefeito. Até porque quem paga os impostos é o povo que trabalha”, acredita.

Mesmo longe das atividades, o ex-vereador diz que não deixa de votar nem de acompanhar a política. Ele relata que está contente com a atual situação do país, lembra que é de vital importância que o Brasil se mantenha nos rumos da democracia e lamenta o preconceito que o próprio meio criou com os políticos. “Hoje é só entrar na política e ser chamado de ladrão e corrupto”, diz.

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Corrupção

Sobre as recentes denúncias de corrupção na política, Gustavo reclama da mudança de comportamento da população ao longo dos anos. Para explicar melhor, ele dá um exemplo do tempo em que era comerciante. “Era comum vender fiado, pois poucos tinham condições de pagar. Nós fazíamos crédito de dois ou três meses. Ninguém deixava de pagar. A palavra naquele tempo valia muito”, recorda com saudade.

Gustavo Wernesbach e a esposa, Isabel Poli: ao fundo, políticos que homenagearam o ex-vereador: ‘E ainda tem o problema de gastar na campanha mais do que vai receber durante os quatro anos de mandato. Nesse ponto as pessoas começam a roubar para recuperar o investimento’.

E foi o comércio que fez com que Wernesbach deixasse a política. “Chegou um tempo que tive de dar mais atenção aos meus negócios. Meus sócios estavam cansados e a loja precisava de atenção para ser preservada. Depois me arrependi, poderia ter ficado mais tempo na política”, lamenta.

“Hoje é muito mais difícil fazer política. Existe um pensamento que você entra na política mal intencionado. Na minha época era o contrário. E ainda tem o problema de gastar na campanha mais do que vai receber durante os quatro anos de mandato. Nesse ponto as pessoas começam a roubar para recuperar o investimento. Se nós pagamos muito imposto a culpa é dos corruptos”, Gustavo Wernesbach, ex-deputado estadual e ex-vereador.

Gustavo Wernesbach se despede da reportagem na porta de casa, na Vila da Estação, em Domingos Martins: Hoje é muito mais difícil fazer política. Existe um pensamento que  que você entra na política mal intencionado. Na minha época era o contrário”, compara