Turbulência Política e carência no interior

No Norte do Estado, dona Maria Nelma da Silva, aos 43 anos, espera “apenas” que os políticos percebam que ela e seus vizinhos também são “seres humanos”. No Sul, Iany de Souza Rodrigues, aos 18 anos, não tem muitas esperanças de a política mudar sua realidade e trazer novas perspectivas de futuro.

As duas representam diferentes gerações que veem o prometido progresso de seus municípios ser substituído por brigas, denuncismo e corrupção. A instabilidade política, que compromete o desenvolvimento local, já atingiu 12% das 78 cidades capixabas levando ao afastamento e/ou cassação de nove prefeitos. Neste mês, A GAZETA visitou três dessas cidades.

“Queria que o prefeito parasse de brigar e olhasse para nós”, disse dona Nelma. Com problemas de saúde, ela não pode trabalhar. Mora em uma casa de dois cômodos, sem banheiro, com o marido e três filhos na periferia de Jaguaré.

A cidade é comandada por Sávio Martins (PMDB) desde junho do ano passado. O ex-prefeito Evilázio Altoé (PSDB) foi cassado por compra de votos após denúncias que o próprio Sávio levou à Justiça.

É assim desde a emancipação do município, há 20 anos. A rivalidade entre os dois grupos que se alternam no poder alimenta a instabilidade, leva à estagnação econômica e à desigualdade social.

Os desafios são muitos. Mesmo com a 24ª maior receita per capita do Estado, Jaguaré é o sétimo município com o pior número em investimentos, tem mais de 50% de sua população considerada pobre e um índice de homicídios assustador: 7,29 para 10 mil habitantes – o terceiro pior no Espírito Santo.

A briga política parece não ter fim. O atual prefeito é candidato a reeleição e Evilázio não descarta entrar na disputa. Corre por fora Rogerinho Feitani, que se desligou do grupo do ex-prefeito.

“A cultura da compra do voto aqui abalou a comunidade e desorganizou a cidade. Mas não tenho nada contra o Evilázio. Apenas noticiei à população aquilo que estava ocorrendo”, disse Sávio. Evilázio respondeu que é alvo de perseguição política. Nas ruas, a população já reclama da falta de opção para as urnas em 2012.

Maria Nelma da Silva, entrevistada sobre a situação política de Jaguaré. - Editoria: Política - Foto: Vitor Jubini

A vida de uma eleitora que mora em Jaguaré
Dona Nelma mostra sua casa na periferia de Jaguaré. Em dois cômodos, sem banheiro, moram cinco pessoas.
“Eles têm que parar de brigar. Têm que ficar um prefeito certo e alguém fazer algo pela gente. Nós também somos seres humanos”. Maria Nelma da Silva, moradora de Jaguaré

Apiacá
Por abuso de poder político e econômico, a Justiça também agiu em Apiacá. Em junho de 2010, cassou o então prefeito José Chierici Filho (PDMB), o vice dele, Acyr Baptista Laurindo (DEM), além de quatro vereadores e um suplente. Humberto Alves (PPS), o Betinho, foi eleito para mandato-tampão.

Na cidade, até os eleitores têm medo de perseguição política. Evitam falar abertamente sobre a situação por receio de represálias. “A cidade é pequena. É melhor eu não falar”, explicou um comerciante.

É de Apiacá a jovem desesperançosa Iany do início deste texto. “Tenho horror a política”. E a justificativa é o retrato do que vê na cidade. “É muita briga. Nunca dá certo. Ao invés de discutir projetos, eles fazem fofoca”, afirmou.

Após listar melhorias que fez na cidade, o atual prefeito admitiu: falta muito para Apiacá. A cidade tem 30% de sua população abaixo da linha da pobreza e 40% de desempregados.

“Aqui tem o histórico de se explorar a pobreza para permanecer no poder. A política em Apiacá era com base do coronelismo. Esta foi a primeira vez que a oposição venceu as eleições”, disse Betinho.

Mas o grupo que se uniu com o lema de que teria “dois prefeitos para governar”, prefeito e vice, já se desentendeu. Desde a diplomação, por motivos aparentemente políticos, Betinho e seu vice, Carlos Magno de Oliveira (PPS), o Kaká, romperam. Kaká nunca foi à prefeitura e já se articula para sair candidato ano que vem contra Betinho.

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Em meio a esse cenário, a população é quem mais sofre. Apiacá lidera listas apenas negativas. Tem o pior valor em investimentos das cidades capixabas, é quem menos destina verbas na despesa com educação por aluno. O quadro na saúde também não é animador. O município está em 55º nos gastos para o setor per capita.

“Se não tivesse tanto troca troca de prefeito, a cidade poderia desenvolver muito mais. Essa briga atrapalha”, disse o morador Felipe Almeida da Silva. Por falta de oferta, ele procurou emprego na cidade vizinha, já no Estado do Rio de Janeiro.

Morando em um terreno dividido com três casinhas, a doméstica Rosângela de Fátima Magalhães elencou os problemas da cidade. O mais urgente, para ela, são as condições de moradia. “É só chover que alaga tudo. O prefeito tem que olhar mais para cá”. Para ela, as eleições fora de época agravam a situação. “Os projetos têm que começar do zero”.

Lucinete Silva Rocha, entrevistada sobre a situaÁâ??o do municÃ?pio de Aracruz. - Editoria: PolÃ?tica - Foto: Vitor Jubini

“Queria que o prefeito olhasse mais para a gente, desse melhor condição de vida. Aqui tem muito rato e mosca”. Lucinete Silva Rocha, moradora de Aracruz

“Troca o prefeito e os projetos têm que começar tudo do zero.
A população perde”.
Rosângela Fátima Magalhães, moradora de Apiacá

“É muita briga. Nunca dá certo. Em vez de discutir projetos, eles (políticos) fazem fofoca”. Ivany de Souza Rodrigues,  moradora de Apiacá

“A política  é uma bagunça e quem sofre mais com isso são os pobres. Mas eu tenho esperança de que melhore”. Rosalinda de Souza, moradora da Portelinha, Aracruz

Aracruz
Com a quinta maior receita per capita do Estado, o terceiro em arrecadação de royalties e o índice de pobreza entre 36% e 49%, Aracruz é outra cidade que sofre com a turbulência política.

O prefeito Ademar Devens (PMDB) foi afastado do cargo por duas vezes acusado de fraudar licitações. Com boa situação financeira e grande perspectiva de investimentos, o município também sofre com bolsões de pobreza.

Após o desgaste com a desocupação em Barra do Riacho, a prefeitura, segundo moradores, teria desistido de igual ação na Portelinha. A comunidade, formada após ocupação e hoje com 133 famílias, sofre com a política local.

“O prefeito inicia o projeto para regularizar a nossa situação, mas sai. O que assume não dá continuidade. Não assinam os papéis e começa de novo”, alegou a líder comunitária Rosalina de Souza. Na Portelinha, não há rede de esgoto, iluminação nem água encanada.

Lá está um dos desafios para quem assumir a prefeitura ano que vem. Alguns nomes já estão postos. O vice-prefeito Jones Cavaglieri (PSB), após desentendimentos com Devens, garante que está tudo resolvido e conta com a ajuda do prefeito. Devens ainda não definiu apoio. Também está na disputa o deputado Marcelo Coelho (PDT), que prega a renovação para Aracruz.

No discurso, pré-candidatos das três cidades visitadas confirmaram que os cidadãos são os que mais sofrem com a instabilidade política e que levantaram a bandeira branca para o diálogo. Mas muitos já demonstraram estar preparando o dossiê contra o adversário da corrida eleitoral. A fala, pelo visto, está longe de virar realidade.

O cenário em nove cidades

Apiacá: Em junho de 2010, o TRE cassou José Chierici Filho (PMDB), o vice Acyr Laurindo (DEM) e quatros vereadores por compra de votos. Betinho (PRP) foi eleito prefeito.

Jaguaré: Em abril de 2010, o TRE cassou Evilázio Altoé (PSDB) e o vice Deucides Ferreira (PSB) por compra de votos. Em junho, Sávio Martins (PMDB) foi eleito.

Aracruz: Ademar Devens (PMDB) foi afastado duas vezes acusado de fraude em licitações. Assumiu o vice Jones Cavaglieri (PSB). Liminar reconduziu Devens ao cargo.

Pedro Canário: O TRE cassou Mateusão (PTB) e o vice José Erivan Tavares (PRTB) por abuso de poder na campanha.

Rio Novo do Sul: Em 2009, a Justiça cassou Estevam Fiório (PMDB) e o vice João Martins (PSB) por abuso de poder econômico. João Fachim (PSB) é o novo prefeito.

Santa Leopoldina: Afastado desde setembro de 2010, Ronaldo Prudêncio (PDT) foi cassado pela Câmara por conta de corrupção em licitações citadas na Operação Moeda de Troca.

Fundão: Marcos Moraes (PDT) e o vice Ademir Loureiro (PSC) foram afastados após a Operação Tsunami acusados de fraudar licitações.

Iconha: Em 2009, Dercelino Mongin (PP) e o vice João Paganini (PMN) perderam os mandatos por compra de votos. Recorreram e permanecem no cargo.

Linhares: Em março, Guerino Zanon (PMDB) foi condenado à perda do cargo por repassar dinheiro público a uma faculdade da família. Recorreu e está no cargo.