Técnicos do Ministério da Saúde atestam que não há eficácia no uso da cloroquina contra Covid-19

Artigo se baseia em 37 pesquisas internacionais; mesmo sem eficácia comprovada, pasta divulgou novo protocolo para aplicação em qualquer paciente da doença

Médicos exibem embalagens de cloroquina e de hidroxicloroquina

Um artigo assinado por oito técnicos do Ministério da Saúde e enviado para a Revista da Associação Brasileira de Saúde Coletiva na quarta-feira da semana passada aponta que não há eficácia e segurança comprovadas de nenhum medicamento para o tratamento do novo coronavírus.

Segundo o texto, as “melhores evidências” colhidas até o mês de abril não conseguiram comprovar os benefícios do uso da cloroquina, apresentando resultados distintos entre si. O presidente Jair Bolsonaro tem pressionado o ministério a expandir o uso do remédio no combate à pandemia, receitando o remédio para pacientes logo no início da doença.

O uso da cloroquina foi o pivô da demissão dos dois últimos ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Nenhum dos dois aceitou expandir o uso do remédio sem que sua eficácia contra a Covid-19 fosse comprovada. O novo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, deve divulgar nesta semana um novo protocolo referente ao uso da substância.

Como exige Bolsonaro, pelas novas regras, os médicos poderão utilizar o medicamento em qualquer paciente com Covid-19. Na prática, o protocolo vai garantir a utilização do medicamento até em casos leves. Até o momento, sua utilização está restrita a pacientes em estado grave.

O artigo enviado para publicação é assinado ao todo por 11 pesquisadores, oito deles ligados ao departamento responsável pela coleta de evidências do Ministério da Saúde. Segundo seusautores, o estudo foi conduzido para informar cientificamente, e de modo imparcial, a tomada de decisão em saúde dos gestores do Ministério da Saúde do Brasil no contexto da emergência de saúde pública de importância nacional. No texto, ao citar pesquisas publicadas internacionalmente, é sugerida a possibilidade do coronavírus ser uma doença “essencialmente não-tratável”.

“A quantidade de estudos conduzidos em paralelo sugere que a comunidade científica está fazendo um grande esforço na busca de tratamentos seguros e eficazes. Contudo, há grandes chances de estarmos lidando com uma doença essencialmente não-tratável, somente com necessidade de medidas suportivas”, afirmam os pesquisadores, que completaram destacando a importância do isolamento social e do avanço na testagem.

Entre essas medidas que podem evitar a mortalidade, as autoras destacaram o isolamento social, avanço na capacidade de testagem e medidas de prevenção. No artigo, os técnicos do Ministério da Saúde revisaram 37 pesquisas de vários países dedicadas à investigação de tratamentos contra o coronavírus. Somadas, observaram um total de 2.545 pacientes.

Resultados inconclusivos

A avaliação da qualidade dos estudos e a redação do artigo foi realizada por seis técnicas do Ministério da Saúde. O documento passou ainda pela revisão de outros cinco pesquisadores. Entre elas, estão a diretora do Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde e a Coordenadora de Evidências e Informações Estratégicas em Gestão em Saúde.

As técnicas do Ministério da Saúde buscaram as pesquisas em plataformas de pesquisas médicas internacionais, como “Medline” e “International Clinical Trails Registry Platform”. Cientistas ao redor do mundo costumam enviar seus trabalhos para essas bases. A maioria dos estudos tiveram sua aplicação em pacientes de hospitais chineses e americanos.

Em relação à cloroquina, foram analisados dez estudos, que tiveram resultados inconclusivos. “(Um estudo) demonstrou que o grupo (que tomou o remédio) apresenta maior risco de morte por qualquer causa quando comparado ao grupo sem cloroquina. Contudo, (outro estudo) não observou diferença entre os grupos”, dizem os técnicos do Ministério.

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“As melhores evidências disponíveis, até abril de 2020, falharam em demonstrar ou excluir um efeito benéfico da CQ ou HCQ nas infecções por coronavírus humanos ou na negativação viral. Além disso, os resultados apresentados são limitados e devem ser interpretados com cautela, uma vez que os desfechos importantes para os pacientes (por exemplo, mortalidade, taxa de progressão da síndrome respiratória aguda grave e necessidade de ventilação mecânica) não estavam relatados na maioria das publicações”, completam.

Publicações da pasta apontam ineficácia

A maioria das autoras do artigo atua no setor de coleta de evidências do Ministério da Saúde. Desde o dia 8 de abril, o Ministério da Saúde tem publicado um “Informe Diário de Evidências”. Na prática, uma reunião de documentos que resumem o resultado das principais pesquisas sobre tratamentos para a Covid-19, segundo a pasta. Na plataforma, os técnicos do Ministério da Saúde resumem as pesquisas e avaliam sua qualidade com base em critérios internacionais. Até o momento, foram publicados 28 informes.

Nestes informes, o GLOBO identificou menção a 48 estudos ligados à cloroquina. A conclusão da maioria deles não aponta para a eficácia como tratamento. Há alguns estudos que indicam benefícios, mas eles não cumprem, segundo os técnicos do Ministério da Saúde, critérios de qualidade metodológica.

Oito estudos reunidos pelo Ministério da Saúde indicam que a cloroquina não apresenta qualquer diferença em relação ao tratamento comum, com oxigênio e antivirais. Outros três apontaram que a substância tem efeitos positivos no tratamento da Covid, como a redução do período de tempo com o vírus no sangue. Mas nenhum desses três últimos foram classificados como de boa qualidade, segundo o Informe Diário de Evidências. Em um deles, por exemplo, não houve grupo de controle para comparação da intervenção com cloroquina, ou seja, os pacientes não foram divididos em grupos que não tomaram o medicamento, o que permitiria sua comparação com o grupo que recebeu o remédio.

Para outros dois estudos, o uso de cloroquina é seguro – isto é, não chega à conclusão sobre sua eficácia contra a Covid-19, mas afirma que pode ser utilizado sem grande perigo de efeitos colaterais. O fato de ser um remédio já conhecido foi um dos fatores que contribuiu para sua adoção em outros países do mundo, uma vez que já há estudos sobre seus efeitos colaterais no uso da malária.

Amostras dos EUA

Selecionados apenas os estudos classificados como “bons” ou “excelentes” pelo Informe Diário de Evidências, cinco das 13 pesquisas indicam que a cloroquina não tem eficácia contra a Covid-19 em relação ao tratamento padrão e outros três relatam os possíveis riscos associados a seu uso, sobretudo em relação a problemas cardíacos.

Outros quatro que apontam para benefícios do medicamento, entretanto, são relatos de casos, isto é, citam a evolução clínica de apenas um paciente. Um deles recomenda seu uso apenas para ensaios clínicos no momento.

Os que analisaram os maiores grupos de pacientes também apontaram para a ineficácia da cloroquina. Em um deles, foram analisadas amostras aleatórias de 1.438 pacientes hospitalizados com Covid-19 em 25 hospitais da região metropolitana de Nova York, nos Estados Unidos. Os autores apontaram que não foram encontradas diferenças significativas na mortalidade dos pacientes que receberam cloroquina, azitromicina ou ambos em relação ao grupo que não recebeu nenhum dos dois medicamentos.

Em outro estudo, foram incluídos 1.376 pacientes hospitalizados com Covid-19 e que apresentaram a doença respiratória moderada a grave. Desse grupo, 811 receberam cloroquina e 565 não receberam. Segundo a pesquisa, não houve qualquer associação entre o uso da substância e a diminuição da mortalidade.

 “Baseado nesses resultados, os autores informaram que a orientação clínica no centro médico que executou o estudo foi atualizada, e a recomendação de que pacientes com Covid-19 sejam tratados com cloroquina foi removida, uma vez que seu uso não foi associado a um risco maior ou menor de intubação ou morte”, afirmou o Informe Diário de Evidências.

Fonte: Globo