O padre que pode virar deputado estadual

Padre-Honório-destaquePadre Honório tem 56 anos e aquela aparência de homem simples, típica de sua formação franciscana. Recebeu de braços abertos a coluna #Café na Rede para uma conversa e mostrou que entende tanto de política quanto qualquer outro pré-candidato. Falou de coligações, de perspectivas, de atuação parlamentar. A impressão é de uma candidatura amadurecida, que pretende dar trabalho aos demais concorrentes.

Filiado ao PT e com 30 anos de batina, o pároco de Nova Venécia atua em projetos sociais da igreja católica desde jovem, quando foi ordenado frade na Ordem Menor dos Frades Capuchinhos. Depois virou padre diocesano e construiu uma vida dedicada às causas sociais nas comunidades por onde passou e nos projetos da igreja ligados à saúde, à educação e aos movimentos sociais.

Pré-candidato a deputado estadual, Honório participa de um grupo que tem padres de duas dioceses importantes, a de São Mateus e a de Colatina (ele não disse quantos, mas deixou a entender que são muitos). Sua pré-candidatura conta ainda com apoio de pequenos agricultores, lideranças de movimentos sociais e até pastores de igrejas evangélicas. A entrevista que você confere abaixo contou com a colaboração da jornalista Amanda Silveira.

Padre Honório: Eu nunca tive vontade de ser candidato, mas sempre atuei nos municípios onde fui padre. Aqui na região do extremo Norte, participei dos conselhos regionais e sempre houve este desejo das lideranças, de que eu aceitasse encarar uma candidatura. Mas sempre entendi que poderia fazer tanto quanto uma liderança política estivesse fazendo. Não precisava de um mandato.

Como está se dando essa relação entre o senhor, a Igreja e a pré-candidatura?

Na realidade, a Igreja Católica não tem aquela preocupação em criar uma bandeira católica na Assembleia. O interesse principal é trabalhar a formação de lideranças que possam defender a vida. Às vezes algum padre acaba se candidatando, mas é muito raro. Até porque a gente tem muita facilidade de realizar trabalho social no próprio espaço comunitário. O importante para nós é a formação de lideranças leigas que possam assumir os cargos políticos e defender a vida.

Mas o senhor conversou com a Igreja?

Quando eu fui conversar com o meu Bispo sobre esta questão, não foi uma decisão de disputar o poder,  e sim sobre a vontade de fazer uma missão num lugar diferente no próximo ano, como a Assembleia Legislativa. De continuar um trabalho que já faço há muitos anos. Eu encaro isso como missão. Não faço um trabalho separado. É uma missão da sociedade, da igreja, do cristão.

O senhor disse que não queria ser candidato, mas acabou aceitando por desejo do grupo. Por que só agora?

Quando cheguei em Nova Venécia, começamos a fazer um trabalho no extremo Norte em relação à agricultura, à agroecologia e à diversificação agrícola. Formamos um centro de reabilitação pra pessoas com dependência química. E as lideranças da região que estavam nesse projeto conversaram comigo para que eu aceitasse o desafio de ampliar um pouco mais, adiantar um pouco esse projeto. O objetivo também é trabalhar a formação política de novos vereadores, novos prefeitos, novos secretários.

Foi aí que aceitou?

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Nesse sentido, eu aceitei. Mas pra mim não é fácil, pois vivo numa zona de conforto: eu tenho uma casa pra morar, comida, um carro pra trabalhar, o respeito das pessoas. A minha vida é tranquila. Eu não precisaria estar me expondo, porque, na realidade, estou colocando o meu nome pra ser realmente chacoalhado. Mas eu entendo que, se colocar o meu nome e a gente montar um projeto junto… Se conseguirmos trabalhar uma nova liderança ligada a esse projeto, e se isso fizer bem para o Estado, vai valer a pena passar por todo esse processo. Nós fizemos uma proposta de construir um conselho, que vai organizar e conduzir o mandato. E o mandato vai ser uma ferramenta desse projeto coletivo.

O projeto é substituir o senhor?

Sim. Tanto é que não estou defendendo uma bandeira religiosa. Neste projeto que nós estamos trabalhando tem pastores, lideranças de outras igrejas. Nós trabalhamos juntos, porque temos que ter líderes na Assembleia para defender a vida. Não importa que seja a vida do católico, do espírita, do evangélico, do ateu. A função do parlamentar é defender a vida. Não é defender a religião. Religião é feita no altar, com nossas convicções.

Dentro

“A Igreja Católica não tem preocupação em criar uma bandeira católica na Assembleia”, garante Padre Honório

O senhor disse que o projeto do mandato está sendo formatado com um conselho. Pode explicar melhor?

Estamos levando um questionário e colhendo opiniões das pessoas em 15 municípios capixabas. Organizamos 10 eixos temáticos: quatro são relacionados diretamente com o homem do campo (Meio Ambiente, Agricultura, Desenvolvimento Sustentável e Infraestrutura); quatro são ligados às áreas mais importantes para as pessoas do campo e da cidade (Segurança Pública; Esporte, Cultura e Lazer; Saúde e Educação); dois temas são transversais e dizem respeito à articulação e ao objetivo de tudo isso, que são o Associativismo e a Formação Política. Cada um desses eixos terá um grupo e cada grupo terá um representante no mandato. Esses representantes formarão um conselho que atuará em todas essas áreas e dirigirá as ações.

E o senhor sabe exatamente onde está entrando?

Eu sei. Eu estou entrando onde eu vou ter a oportunidade de ser instrumento de formar um monte de lideranças pra pensar diferente. Eu estou entrando onde eu vou ter a oportunidade de trabalhar um projeto de saúde, de educação, de meio ambiente… Olha, se a mãe tivesse que saber, para ficar grávida, se o filho vai ser um cidadão de caráter ou marginal vagabundo, ela não ficaria grávida. Só tem uma maneira de saber: é sendo. Quem tem medo de errar não acerta. Quem tem medo de perder não ganha.

O senhor está acompanhando as conversas, as possibilidades de coligações?

Acompanho, mas estou me preparando e sei que se eu tiver menos de 25 mil votos eu não ganho a eleição. Eu acredito que se o PT se coligar com o PSB ou com o PMDB, o mínimo necessário para ganhar a eleição em qualquer um desses partidos é 23, 24, 25 mil votos.

E acha que tem mais chances em algum palanque específico?

Eu sou amigo do Renato Casagrande e do Paulo Hartung. Sempre votei nos dois. No Paulo para deputado, depois senador, governador. No Renato Casagrande também. Votei nele para o deputado, para senador e para governador. Eu entendo o seguinte: uma candidatura única no Estado empobrece o debate. Se estiver todo mundo num projeto só, vai haver debate com quem? Eu vou respeitar a decisão do partido. Se o PT estiver com Paulo, vamos com ele; se estiver com Casagrande, estaremos com ele.