No lado B das redes sociais, internauta se revela racista e preconceituoso


Espaço democrático? Lugar de diálogo e entendimento? Expressões como essas são muito usadas para definir a internet, que mudou a forma como o homem se comunica e ampliou incrivelmente o alcance de mensagens antes restritas. Mas escondem, também, um lado sombrio.

Mensagens discriminatórias, racistas, xenofóbicas e homofóbicas andam cada vez mais comuns nas redes sociais. É um fenômeno dos tempos modernos? Não, garantem especialistas. Acontece que a sociedade, que continua preconceituosa como sempre, agora tem onde destilar seu ódio para muitos seguidores – e o que é melhor (para eles): na segurança de casa, na tranquilidade do ar condicionado, no dinamismo dos 140 caracteres.

Dos perfis falsos, muitas vezes criados com o único objetivo de difamar adversários, às páginas dos que não têm medo de tecer opinião sobre nada, não faltam maus exemplos. Estudante de Direito de São Paulo, Mayara Petruso “desabafou” logo após a derrota do candidato tucano a presidência do país, José Serra (PSDB), em outubro de 2010. “Afunda Brasil. Deem direito de voto pros nordestino e afundem o país de quem trabalhava para sustentar os vagabundos que fazem filhos para ganhar o bolsa 171 (sic)”, escreveu, no Facebook.

Não satisfeita, postou no Twitter: “Nordestino não é gente. Faça um favor a Sp, mate um nordestisto (sic) afogado”. Após publicar as mensagens, ela foi fortemente repreendida nas redes sociais, teve de deixar o emprego e evitou sair de casa.

foto: Reprodução/Twitter

Estudante de publicidade diz que odeia negros
A Justiça também não deixou as mensagens passarem em branco. A Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco sugeriu que o Ministério Público de São Paulo apurasse o fato. Alguns meses depois do ocorrido, em maio de 2011, a entidade aceitou as denúncias e a estudante pode ser condenada por crime de racismo. A pena vai de três meses a um ano de prisão e pode chegar a cinco anos de reclusão.

Os nordestimos parecem ser mesmo o alvo principal dos preconceituosos da rede. A internauta Amanda Régis resolver criticar esse povo aparentemente sem motivação. “Esses nordestinos pardos, bugres, índios, acham que têm moral, cambadas de feios. Não é a toa que não gosto desse tipo de raça”, disse em maio de 2011.

O tweet resultou em um movimento contrário. A hashtag #orgulhodesernordestino chegou ao primeiro lugar na rede social e Amanda pediu desculpas, alegando ter agido por impulso após a derrota do Flamengo para o Ceará, na Copa do Brasil de 2011.

#homofobiasim, ou seria melhor não?

Existe até hoje um movimento ativo no Twitter. Com a hashtag #homofobiasim é possível encontrar mensagens de pessoas que consideram homosexualidade doença. No perfil conhecido como @WilsonHazak, e intitulado “Moral e Família” é possível encontrar todo tipo de texto reacionário.

Essa foi a maneira que a pessoa que administra a conta achou para falar dos homosexuais. “Vcs sabem q é misógino? É quem tem aversão a mulher, ou seja, #viado. Este é o novo termo q a bixarada usa para “enrustido” #homofobiaSIM (sic)”, disse o admistrador. O tópico, na época em foi lançado, teve mais de 15 mil adeptos e chegou a ser retirado do ar pelo Twitter. Mas algumas mensagens ainda estão disponíveis.
foto: Reprodução/Internet

Homofobia é recomendada por perfil do Twitter

Com que motivo?

Psicólogo e doutor em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade, Adriano Jardim explica que na rede as pessoas reduzem a auto-censura devido ao anonimato e a um sentimento de impunidade. “Muitas vezes, a capacidade de comunicação é potencializada e os freios sociais são ignorados”, detalha.

Com esse sentimento, ele explica, é muito comum as pessoas se aproveitarem da internet para exprimir opiniões que seriam barradas no convívio social. “Assumir isso frente a frente com alguém que discorda é mais difícil. Nesse sentido a internet ajuda, mesmo quando as pessoas colocam o nome e assumem a opinião. Existe uma certa mediação que funciona de máscara e ajuda a diluir a culpa”, analisa.

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O psicólogo descreve esse comportamento como um fenômeno psicológico. “O mesmo é quando entramos no carro e imaginamos ele como uma extensão do nosso corpo, já que vamos alcançar uma velocidade que normalmente não alcançaríamos. A comunicação na internet tem a mesma função, já que existe um alcance antes inimaginado. Dai vem o estímulo das pessoas falarem a primeira coisa que vem à mente”, conclui.

Eu odeio

Comum também nas redes sociais são comunidades do tipo “Eu Odeio”. Desde acordar cedo até conviver com grupos sociais diferentes, existem pessoas que se juntam na internet para justificar o ódio que sentem pelas outras. Com mais de 98 mil membros, a comunidade “Eu Odeio Nerd que Não Passa Cola!” é um dos exemplos. Na descrição da mesma é possível ler: “É uma guerra sem fronteiras nessa comunidade aprenda a cultivar seu ódio, escolha um lado e se fraquejar sinta se a vontade (sic) para se retirar”, diz.

Ainda nesta comunidade, nos fóruns criados para debater temas comuns, um dos usuários disse a seguinte frase para os considerados nerds, pessoas geralmente estudiosas e com dificuldades de relacionamento social. “Os nerds só servem para duas coisas, passar cola e apanhar”, diz o usuário.

Em uma busca rápida, também podemos encontrar outra comunidade deste tipo. “Eu Odeio as Patys da Escola” tem mais de 114 mil membros. Nela, garotos e garotas são incitados a tratar mal e até a agredir as meninas que são consideradas patricinhas, sempre bem arrumadas e geralmente com muito dinheiro. “Pega uma por uma e desce o cacete. É disto que elas gostam”, diz a descrição da comunidade.
foto: Reprodução/Orkut

Precoceito com patricinhas. Iternauta incita a violência
Existem consequências

Especialista em comunicação, opinião e espaço público, a professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Daniela Zanetti, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, diz que as novas tecnologias não tornaram as pessoas preconceituosas. “Esse modo como nós enxergamos o mundo já existia, e as ideias podem ser expressadas independente da internet”, pondera.

Contudo Daniela diz que o campo das redes sociais e da internet ainda está em fase de conhecimento. Os processos de comunicação e até os resultados destas publicações ainda não estão totalmente mapeados. “Muitos não conseguem imaginar o tamanho que uma publicação infeliz pode tomar e nem mesmo quantas pessoas podem ser atingidas por ela”, explica.

Outro ponto que colabora com esse tipo de comportamento na internet, segundo Daniela, é o caráter confessionário que a mesma tomou. “É o local onde as ideias vão ser expostas muito facilmente. As pessoas acreditam que podem dizer o que querem e se sentem livres. Históricamente, temos uma aceitação a diferença que é muito recente. E nem todos incorporaram isso ainda”, lembra.

Código Penal virtual

Para completar as dificuldades de controle e facilitar a vida de quem quer destilar preconceito e racismo na internet, a legislação para a área ainda não é muito clara. Mas, embora não haja leis específicas para crimes na internet, já há muitos juízes dispostos a aplicar a estes crimes os princípios do Código Penal para crimes contra a honra (calúnia, injúria e difamação), crimes de falso testemunho, estelionato e furto, por exemplo.
foto: Divulgação

A procuradora Luiza Eluf integra grupo que está revisando o Código Penal: previsão de crimes praticados na internet

Agora, um grupo trabalha para reformar o Código Penal, que vigora deste 1940, e incluir crimes ligados à internet.
“A punição específica para crimes de internet ainda está em fase de debate. Em breve teremos alguns pontos já concluídos para apresentar ao público”, diz a procuradora de Justiça de São Paulo Luiza Eluf, integrante do Ministério Público paulista há 30 anos e parte do grupo de 15 pessoas que trabalha na reforma do código.

Sobre a elaboração do documento, a procuradora Luiza Eluf diz que “o trabalho a ser feito é monstruoso e os membros da Comissão estão se empenhando ao máximo para que possamos cumprir o prazo”, explica.

A comissão que elabora a reforma do Código Penal foi formada em setembro do ano passado e tem 180 dias para concluir os trabalhos.
foto: Arabson/A Gazeta

O lado B da internet, charge de Arabson