Mulher afegã é decapitada por ir às compras sem o marido

Alvo de uma reprovação quase generalizada, sem apoio popular e amargando o fim da lua-de-mel com um mercado insatisfeito ante a lentidão da retomada econômica, o presidente Michel Temer (PMDB) embarca para 2017 com a ameaça de ser apeado do cavalo. O fim de ano em Brasília deixou no ar um rastro de incertezas: além das 77 delações da Odebrecht ameaçando derrubar o establishment político ao virem a público nas próximas semanas (não há dúvidas sobre a homologação no STF), há a sensação de que o governo está derretendo nos poucos níveis de confiança que lhe restam.

Venta demais na mesa do presidente, ministros caem por escândalos, as ruas chiam, e a única tábua de salvação a vista é o instável apoio do Congresso. Apoio relativo, que pode se esvair, assim como virou água a ampla base parlamentar de Dilma Rousseff nas agruras da crise de governabilidade. Boa parte do Legislativo caiu no colo de Temer mais por aborrecimentos na intratável relação com Dilma do que por outra coisa. E a petista ainda tinha o benefício da simpatia de setores fiéis na sociedade – anteparo que falta a Temer.

Enquanto colherem as venturas dos cofres abertos da União, os parlamentares ficam no barco – e não à toa a equipe econômica amargou a derrota da falta de contrapartidas ao socorro aos Estados quebrados. Um parlamentar aliado relata à coluna a baixa taxa de resolutividade de demandas rotineiras, encaminhadas pelo presidente aos ministros. “Aqui a gente está matando um leão por dia”, dizia um interlocutor de Temer às vésperas da queda de Geddel Vieira Lima. “Não dá para conversar com um governo tocado por Geddel e Eliseu Padilha”, queixava-se um deputado.

Tudo isso acendeu o sinal vermelho no Planalto. E a nova operação da Polícia Federal esta semana elevou temores em relação ao processo de cassação da chapa Dilma-Temer no TSE. Parecia haver um interesse velado, uma espécie de entendimento subliminar de cúpulas, em deixar esse processo nas gavetas, dando a Temer a chance de encerrar o mandato-tampão recuperando um pouco a terra-arrasada no país. Mas tudo indica que haverá votação desse caso em 2017, apesar dos esforços de Temer em levá-lo às calendas. Um vazamento sobre o voto do relator Herman Benjamin indica pedido de cassação da chapa, dada a impossibilidade de separar as contas de campanha de PT-PMDB em 2014.

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Essa especulação é tão forte que chegou a respingar na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara no final de ano. Houve pressão e movimentos para acelerar a PEC acabando com eleição indireta de presidente da República pelo Congresso. A Constituição determina que a partir de 31 de dezembro tal pleito seja indireto em caso de vacância de presidente e vice. A iniciativa não prosperou, mas dá o termômetro da instabilidade.

Do outro lado da rua, o Planalto tenta contornar essa sensação de fragilidade, embora o próprio Temer até hoje pareça incomodado com o discurso de golpe parlamentar entoado pelo PT. Reagindo, o governo “tratorou” nas votações importantes do fim do ano, aprovou a PEC do teto de gastos nas duas Casas, aprovou o Orçamento deficitário para 2017, emplacou medidas provisórias e ainda apresentou o indigesto texto-base da Reforma da Previdência, tema que ocupará o Congresso no primeiro semestre.

A agenda impopular prossegue na ordem do dia, mas com um detalhe: após cair do Planejamento nos grampos sobre melar a Lava Jato, Romero Jucá voltou ao papel de líder de governo. Não à toa, no bastidor, é chamado de resolvedor-geral da República, dada a celeridade com que soluciona e aprova coisas bem espinhosas.

Ninguém é de ninguém

A eleição é só em fevereiro, mas já ferve nos bastidores a briga pelo comando da Câmara e do Senado. Entre os deputados, na última semana antes do recesso, começou uma guerra de pareceres jurídicos contra ou a favor da recondução de Rodrigo Maia (DEM-RJ), que assumiu este ano em mandato-tampão e mantém fiel apoio inclusive do PT. O centrão, puxado pelo midiático Rogério Rosso (PSD-DF), racha a base e pressiona Temer a não inflar a candidatura do PSDB, que também vive disputa interna de poder com flancos em 2018.

Voto, mas não assino

No Senado, o líder do PMDB Eunício Oliveira (CE) fechou o ano como candidato único, mas sentiu um cheiro de fritura da parte de Renan Calheiros. Eunício, segundo conta um parlamentar, começou a recolher em plenário assinaturas em seu apoio, mas houve resistência dos aliados, por medo de desgaste caso ele vire réu ou seja implicado nas novas fases da Lava Jato. Isolados, os senadores do PT azedaram a relação pessoal com os demais colegas.

Engavetadores

Enquanto ninguém sabe que rumo tomará a reforma da Previdência, já que a impopularidade ameaça derreter o apoio legislativo de Temer, a reforma política tem prioridade zero. Diz o relator da comissão da reforma na Câmara, Vicente Cândido (PT-SP): “A agenda legislativa está tomada pelas medidas econômicas para aquecer a economia. Não adianta ir contra a maré num debate complexo e cheio de interesses, como é a reforma política. Tem coisas na vida que, para fazer rápido, tem que fazer devagar”.