Kennedy doava ração até para fazendeiro rico

Conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado (TCES), com rendimento líquido de R$ 34,6 mil – sem contar valores bloqueados pela Justiça -, e maior produtor de leite de Presidente Kennedy, Valci Ferreira até há algumas semanas contava ainda com uma ajuda providencial da prefeitura para manter sua criação de gado nelore – uma das raças mais conhecidas e caras.

Ele recebia duas toneladas de ração por mês para alimentar seu gado. E tudo dentro da lei.

Valci estava na lista dos produtores rurais beneficiados por uma lei municipal que autorizava o Poder Executivo a doar ração e até distribuir material genético para melhoramento do rebanho. Lei esta que não fazia distinção entre o pequeno e grande produtor.

Sou o maior produtor de leite daqui e não fiquei alheio à lei. Quanto mais me dão ração, mais produzo leite”, disse Valci. Indagado sobre o total de gado que possui, ele não respondeu.

Outros dois grandes produtores rurais da cidade, Martinho Venturim e Fernando Fonseca Seves, também foram beneficiados.

Mas em um município que tem o quarto pior Índice de Desenvolvimento Humano do Estado e onde o dinheiro dos royalties do petróleo não se traduziu em qualidade de vida para a população, o benefício não é um privilégio para os grandes produtores?

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“Está dentro da lei. Não há nenhum privilégio. Pago meus impostos”, rebate. Valci informou que emprega na sua fazenda 28 famílias e ainda é responsável por criar outros 50 empregos indiretos. A GAZETA encontrou o conselheiro na última terça-feira dirigindo seu carro na comunidade de Cancela. Ele tinha acabado de deixar sua fazenda.

Aprovada no final da gestão de Aluízio Corrêa (PR), em 2008, a lei foi regulamentada pelo prefeito afastado Reginaldo Quinta (PTB). De outubro de 2010 até abril deste ano, o município gastou R$ 4,69 milhões só com ração.

A falta de critérios na concessão do benefício levou o interventor no município, Lourival do Nascimento, a suspender a lei. “Ela deveria ser só para o pequeno agricultor e não para beneficiar pessoas com poder aquisitivo alto”.

Já Valci classificou a medida como “um absurdo”. “Revogar a lei é empobrecer o município”.

O interventor chegou ao comando da cidade após a Justiça determinar o afastamento de Reginaldo, acusado de chefiar uma quadrilha que desviou milhões da prefeitura. Reginaldo Quinta ficou 82 dias na prisão e é candidato à reeleição.

E a candidata a vice na chapa de Reginaldo é Alba Ferreira (PTB), mulher de Valci. O Ministério Público já contestou a candidatura dela, alegando que Alba não possui filiação partidária. “Ela não será candidata”, diz Valci, que garante não estar envolvido na campanha de Reginaldo.

“Estou cuidando da minha vida. A candidatura de Alba surgiu de uma brincadeira de um vendedor de carro”. Apesar da declaração, o PTB recorreu para manter Alba na disputa.

O processo que afastou Valci, em 2007, é o caso Beija-Flor, nome do frigorífico usado para lavar dinheiro. Ele foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. “Aqui estou no céu. Acharam que iam me mandar para o inferno. Acharam que eu era apaixonado pelo Tribunal, mas não sou. Acharam que ia ter falcatruas minha lá, não acharam e nem vão achar”, limitou-se a dizer.