Homossexualidade: projeto defende “cura”

É possível um homossexual ser curado? Ou melhor: ser gay é doença? Essa discussão, para psicólogos do mundo inteiro, com aval da Organização Mundial da Saúde (OMS), foi respondida há cerca de 20 anos: a homossexualidade não é considerada doença pelas Nações Unidas desde a década de 1990. No Brasil, deixou de ser tratada por psicólogos desde 1999, com a regulamentação do Conselho Federal de Psicologia (CFP). Mas há deputado federal que acha o contrário.

Ex-Miss Brasil Gay sonha com esposa e filhos

Aos 30 anos, o maquiador Alessandro Alcântara está refazendo sua vida. Ele – que foi eleito Miss Brasil Gay em 2007 – conta ter descoberto ser heterossexual e agora sonha em construir uma família, ao lado de uma mulher. A mudança veio há quatro anos, mesma época em que ele passou a frequentar uma igreja evangélica.

A mudança, segundo Alcântara, está em andamento. “Não houve lavagem cerebral, como tantos dizem. Só optei por ser heterossexual. Hoje sinto atração por mulheres. Pode ser difícil para as pessoas entenderem, mas tudo acontece aos poucos”, explica.

O maquiador afirma que o que aconteceu a ele foi uma limpeza espiritual. “Tudo começou quando fui abusado (sexualmente) aos 6 anos, por vizinhos. Depois disso minha vida mudou. Tenho certeza que, ali, Satanás passou a direcionar minhas vontades”, frisa.

Aos 13 anos, Alcântara assumiu sua sexualidade aos pais e iniciou, logo depois, seu primeiro relacionamento, que durou mais de dez anos. Em 2007, trabalhando como maquiador e transformista, foi eleito Miss Brasil Gay.

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“Minha vida desmoronou logo depois. Não fazia sentido ser homossexual, achava-me incompleto. Foi após terminar a relação de anos que, com a ajuda do meu ex-namorado, encontrei Deus. A Palavra Dele me confortou. O demônio que estava em mim não me controla mais”, diz Alcântara, que costuma testemunhar numa igreja evangélica.

Nas próximas semanas, Brasília deve entrar no debate do projeto de lei do deputado João Campos (PSDB-GO). Ele quer sustar dois artigos da lei que institui o CFP. O texto proíbe que os psicólogos possam emitir opiniões públicas ou tratar a homossexualidade como um transtorno ou doença.

O projeto apresentando por Campos, que é líder da Frente Parlamentar Evangélica, avalia que o Conselho Federal de Psicologia “extrapolou seu poder regulamentar” ao “restringir o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação profissional”.

A proposta é vista pelo conselho como algo ultrapassado. “Causou estranheza a decisão desse deputado ao questionar e querer alterar nosso regulamento. É algo não aceitável e que será acompanhado por nós de perto”, frisa Jairo Tadeu Guerra, membro do Conselho Regional de Psicologia no Espírito Santo.

Segundo ele, só cabe um homossexual ser atendido por um psicólogo quando o assunto se remete à dúvida de sua orientação sexual e este ainda nem sabe se é ou não gay, e, ainda, quando há algum tipo de sofrimento por parte do homossexual devido à sua sexualidade.

“Nos consultórios, o sofrimento do paciente não é por ele ser homossexual e querer ser heterossexual. Eles sofrem de preconceito, da não aceitação por parte da sociedade por se sentirem injustiçados e excluídos do mundo”, defende o psicólogo.

Para Antônio Lopes de Souza Neto, coordenador do Fórum Estadual LGBT, o projeto é um retrocesso. “Enquanto tentam curar os gays, os homossexuais continuam sendo mortos ou cometendo suicídios. Precisamos é de um projeto de lei contra a homofobia”, defende Souza Neto.