Exemplo Francês: diga não e dê fim à manha

Se recusar a comer, fazer um escândalo ao não ter o que queria e provocar situações de verdadeiro vexame para os pais. Você até pode achar isso normal, parte da vida infantil, mas os franceses, não. E eles parecem estar criando os filhos mais civilizados do planeta.

Pelo menos é o que afirma a jornalista americana Pamela Druckerman, autora do livro “Crianças francesas não fazem manha” (Fontanar, R$ 29,90) que chega ao Brasil nesta semana.

Morando em Paris com o marido há 10 anos, Pamela se encantou com a educação das crianças francesas e foi investigar com os pais os segredos desse aparente “milagre”.

Descobriu que, em Paris, as mães não sentem culpa ao dizer “não”, não correm para o berço do filho quando ele chora à noite e nunca colocam as crianças em primeiro lugar – afinal, adultos também têm necessidades.

O resultado não foi a infelicidade infantil, mas, segundo Pamela, filhos mais educados, satisfeitos com suas regras mescladas a doses de liberdade, e pais menos estressados e com direito à vida própria.

A psicopedagoga Raquel Mangia, 42 anos, concorda com os franceses. Mãe de Giulia, de 5 anos, ela não tem medo de estabelecer regras e não faz de tudo para evitar as frustrações da filha.

O resultado, ela garante, é uma criança tranquila, segura e que se comporta bem mesmo longe dos pais. “Chamam de linha dura, porque hoje é tudo muito ‘frouxo’. Sou firme, mas as crianças precisam disso. Disciplina dá liberdade”, afirmou Raquel.

Para a psicóloga e doutora em Educação pela Universidade de Paris, Maria Renata Prado, é importante não acreditar que a França seja um país perfeito onde não há crianças manhosas.

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“Minha experiência na França mostra que a autora deve ter observado as famílias ricas de Paris. Eu a aconselharia visitar os subúrbios e verificar se o ‘Bom dia, senhora’ são realmente praticados”, disse.
Superproteção
Mesmo assim, ela acredita que o livro tem fundamento. “As crianças precisam de regras claras e objetivas, colocadas com segurança e na hora certa. Isso me parece estar mais presente na França do que no Brasil”, contou.

Para a psicóloga, muitos pais acreditam que a superproteção vai evitar o sofrimento do filho e que o “não” é um ato de desamor. Mas a falta de regras – quando o “não” acaba virando “sim” por causa da manha – provoca insegurança nas crianças.

“É a partir do limite e da frustração resultante que a criança tem a noção de realidade fundamental para o seu desenvolvimento”, afirmou. Ponto para a França.

O modo francês de educar

Diga não sem medo
As crianças devem saber esperar, precisam de regras e serão adultos melhores se aprenderem a lidar com a frustração. Não se culpe por isso

Exija educação
As crianças devem dizer “olá”, “tchau”, “por favor” e “obrigada”. Isso mostra que não são as únicas com sentimentos e necessidades

Sem gritar
Ela se comportou mal? Use a tática do “olhão”: aquele olhar severo de repreensão

Quem manda
Os pais são os chefes da casa. Tornar todas as regras negociáveis é cansativo, até mesmo para as crianças

Regras
A ideia é criar uma “moldura” de limites. Regras são fixadas mas há certa liberdade. E as necessidades dos adultos devem ser consideradas ao criar as regras

Hora de dormir
A criança acordou à noite? Espere 10 minutos antes de atendê-la. Ela pode estar só resmungando, sonhando e pode voltar a dormir

Não se anule
Dar prioridade ao papel de mãe, esquecendo o lado mulher e trabalhadora, é prejudicial para todos. É muita pressão para a criança quando a energia, a felicidade e os interesses da mãe são centrados nela.