Exclusivo: taxista de Marechal Floriano fala sobre mortes de jovens

Claudia Feliz
cfeliz@redegazeta.com.br

Ele era visto como um homem tímido, trabalhador e confiável, até confessar os assassinatos da adolescente Tânia Rodrigues Pereira, 17, e da dona de casa Thaís Lyrio de Andrade, 19, crimes ocorridos em outubro de 2009 e junho deste ano, respectivamente, em Marechal Floriano, Região Serrana do Estado. Então, o taxista Deonésio Geik, 34, transformou-se, aos olhos da população, em um homem assustador. Preso no Centro de Detenção Provisória da Serra, isolado com detentos que cometeram crimes semelhantes aos seus, ele concedeu esta entrevista exclusiva a A GAZETA, onde admite ter usado crack, com Thaís, antes de matá-la. Sobre Tânia, afirma que ela traficava drogas. Para Deonésio, que disse à polícia ter estrangulado as mulheres, talvez nem Deus o perdoe. A GAZETA tentou manter contato com as famílias das vítimas, mas os telefones não atenderam. Em entrevistas anteriores, parentes de Thaís já haviam dito que Deonésio mentia em relação a ela.

Onde você nasceu?
Em Afonso Claudio.

É filho único?
Não, tenho dois irmãos mais novos.

Com quantos anos foi para Marechal Floriano?
Com uns 12, 13 anos.

Seus pais eram lavradores?
Sim, vieram para trabalhar na terra de uma pessoa

Como foi sua vida de menino?
Em Afonso Claudio vivia com meus pais, que trabalhavam na roça.

Foi uma infância legal?
Normal. Ali também, no sítio de Marechal.

Você estudou?
Até a sexta série

Se relacionava, tinha amigos? Gostava de fazer o quê?
Tinha colegas, gostava de jogar bola.

Na sua infância e adolescência, como era seu pai?
Gente boa pra caramba. O que podia fazer por nós, ele fazia

Era carinhoso com os filhos? Bebia?
Bebia. Teve uma época que bebia bastante, mas, ultimamente, diminuiu.

E como ele se relacionava com sua mãe.
Quando ele não bebia, se davam bem. Mas, quando ficava bêbado, discutiam muito. Mas nunca bateu nela. Eu e meus irmãos ficávamos nervosos com as brigas, sem saber o que fazer.

Você era rebelde?
Não, sempre fui quieto.

Por que deixou a escola?
Parei na sexta série porque estava trabalhando na roça. Saía tarde do serviço e chegava cansado na escola. Depois, voltei a estudar, mas não aguentei.

Chegou a ficar reprovado?
Da sexta para a sétima fiquei duas vezes reprovado.

Você namorava, tinha paqueras?
Eu era quieto no meu canto, não era de correr atrás. Tive uma namorada, mesmo, de frequentar casa, aos 20 anos. Ficamos uns seis, sete meses juntos.

Por que terminaram?
As pessoas falavam muito.

Falavam sobre a conduta dela?
É. E eu mesmo terminei. Depois, ela foi embora. Soube que casou, teve filho

Você era tímido?
Sim, era.

Você se lembra quando teve seu primeiro relacionamento sexual?
Acho que aos 18, 19 anos.

Gostava de dançar nos bailes?
Não, nunca gostei de festa. Se tivesse algum forró, alguma festa, estava fora. Onde tinha bagunça, não gostava. Preferia ficar no meu canto.

Qual era o seu sonho?
Não sei dizer.

Pensava em sair da sua cidade, fazer algo?
Apesar da merda que eu fiz, sempre quis ajudar as pessoas, entendeu?

A imprensa noticiou que a comunidade o via como um taxista confiável.
(Deonésio chora) Sabe, apesar da minha aparência, nunca fui ruim. Sempre tive um coração mole. Todas as pessoas que eram minhas clientes tinham confiança em mim. Eu as levava para creche, buscava, entregava de casa em casa. Meninos, menininhas, eu tinha a todos como se fossem meus filhos, por Deus do céu. Sentia um carinho… Fico chateado de as famílias dessas crianças saberem das coisas em que me envolvi.

Você fica preocupado com a possibilidade de elas imaginarem que você possa ter feito alguma maldade…
Não, isso não. Não dá para acreditar no que aconteceu (choro).

foto: Fabio Vicentini
Deonésio Geik, 34, conhecido como maníaco do taxi em Marechal Floriano - Foto: Fabio Vicentini
“Eu achava sujo o que Thaís fazia. Era casada, com filho. Taxistas me diziam que levaram ela para se relacionar com outras pessoas”

Você se apaixonou por Tânia e por Thais?
Apaixonar, não, mas dessa última (Thais), eu gostava muito.

Você se sentia atraído por ela?
Não sei. Eu sabia que ela era casada, tinha um filho, mas que ficava com algumas pessoas por dinheiro, inclusive comigo. Para ela era um negócio, pra mim, não.

Você entende que é complicado falar algo sobre alguém que já morreu, e não pode se defender.
Eu sei.

Via esse comportamento dela como algo reprovável, repugnante?
Via. Ela não deveria fazer isso, e eu também não deveria ter ficado com ela. Dava conselhos pra ela. Fico chateado, porque ela não pode se defender, mas sempre que a gente saía ela levava porcaria, e eu mesmo acabei usando.

Cocaína?
Não, pedra.

No dia do crime você estava sob efeito de crack?
Nesse dia, a gente tinha acabo de usar.

E quando você usava droga, ficava fora de si?
A gente via bicho voando, tudo. Eu não sabia nem quem era eu, nem quem era ninguém. O crack em três segundos mexe com a mente da gente.

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Conheceu droga com ela?
Sim.

Foi divulgado que no dia do crime, ela havia ido ao salão de beleza, e como não havia vaga, o chamou para levá-la de táxi a outro local.
É, mas, no carro, convidou para a gente sair. Acabamos indo, e aí deu a merda que deu.

Lá ela disse que não queria mais?
Ela disse que queria muito dinheiro.

Quanto?
Eu geralmente dava R$ 100, mas ela queria R$ 150. Tenho até vergonha de falar: eu não precisava disso, nunca precisei. Mas nem sei se pagava a ela porque gostava dela. Pra ser sincero, eu tinha um carinho forte por ela. Dizia para não ficar com pessoas, que eu sentia com peso na consciência.

Vocês discutiram?
Discutimos. Mas eu parecia louco, via bicho voando. Não sabia se estava vivo, morto.

Você a estrangulou, e depois, diante do corpo, não sabia o que fazer?
É. Eu fiquei mais desesperado ainda.

Mas, depois, saiu e voltou para enterrar o corpo?
É.

E a Tânia, que tinha só 17 anos? Vocês paqueravam?
Sim, mas era meio escondido.

Como era esse relacionamento?
Eu a conheci quando ela tinha uns 15 anos. Depois de um tempo, fui me envolvendo com ela. Nem sempre dava dinheiro para ficarmos juntos, mas sempre que ela precisava, porque às vezes se apertava para o aluguel, e eu ajudava.

Mas ela não morava com a tia?
A família não gostava dela. Ela ficava jogada pelas casas dos outros… A mãe foi para Aracruz e a deixou sozinha, e ela então se envolveu com outras pessoas, gente errada. Olha, ela não usava droga, mas pegava e revendia. Um dia, me pediu dinheiro emprestado para pagar dívida de droga. Eu a ajudei várias vezes. Tempos depois, sofri um assalto. Me pegaram, jogaram meu carro numa pirambeira – nem pra ferro velho serviu. A polícia investigou, mas aí, um dia, conversando com essa menina, a gente discutiu e ela me jogou na cara que ela é quem tinha mandado fazer aquilo comigo. Fiquei quieto, tirei por menos. Mas aí a gente saiu de novo, discutiu, e eu com aquele negócio na cabeça, acabei errando também. Eu ajudava a ela, fazia tudo por ela, e ela foi fazer aquilo comigo?

Usou droga?
Não tinha droga, não.

Por que vocês discutiram?
Porque ela disse que precisava de R$ 600. Aí eu disse: “Pôxa, você fez aquela merda comigo, e ainda assim quer R$ 600?” Ela então disse que eu merecia, a gente discutiu e aí aconteceu.

Você a estrangulou?
É.

Como foi conviver com o segredo desse crime por tanto tempo?
Foi muito ruim. Tanto que eu tentei avisar à família dela. Mandei mensagem de um celular para a prima dela. Comprei um celular só para isso. Estava com a consciência pesada, não estava mais aguentando. Aí depois do que aconteceu com a outra menina, pesou mais na minha consciência. Não aguentei mais.

Houve uma terceira vítima?
Não tenho porque mentir. Se tivesse dez, falaria, porque não vai mudar muita coisa. A pena máxima é 30 anos…

Que explicação você dá para o que aconteceu?
Não sei se foi droga ou obra do diabo.

Mas com a Tânia não tinha droga. Há quanto tempo você usa droga?
Há dois, três meses.

O uso era diário?
A partir do momento que me envolvi, uma, duas vezes por semana. Mas sempre quando saía com Thaís. Lá, chegaram a comentar que a gente era amante.

Você acha que precisa de tratamento?
Não sei. Mas acho que não é normal. Pôxa, eu dava conselho pra Thaís.

Há quanto tempo você não se relacionava com uma mulher sem pagar?
Tinha várias pessoas que eu não pagava, e não sei porque eu ficava com essa menina. Não tinha necessidade disso, e nem de tirar a vida dela. Não tinha motivo para eu tirar a vida dessa menina.

Das duas, não?
É. Olha, tinha dia que eu nem comia, nem dormia direito por causa do que aconteceu. No dia em que falei, na delegacia, me senti leve. E depois falei da outra menina. Eu sei que não tem como as famílias dessas meninas me perdoarem.

Você é religioso?
Sou católico, não praticante. Mas minha mãe vai às igrejas católica e evangélica, toda semana. Olha, essas meninas não mereciam isso; as famílias delas, e a minha, também não. Sobre droga, para quem eu puder dar um conselho para sair disso eu dou. Talvez se não fosse isso eu não teria feito o que fiz…

Você sentia falta de uma namorada?
Não sei dizer. Mas, pra falar a verdade, cheguei a comentar com amigos que estava cansado dessa vida de sair com mulher dos outros. Queria arranjar alguém pra mim. Só que, infelizmente, não deu tempo.

Mas sua vida não acabou.
Pra mim, acabou. Eu posso sair daqui amanhã, mas mesmo assim está acabado, pelo que eu fiz (choro).

Como você avaliaria um caso como o seu?
Às vezes eu acho que é doença mesmo. Não é uma coisa normal. Só Deus tem o direito de tirar a vida de alguém. Infelizmente, na hora, não pensei em Deus, nem em mim, nem nelas, nem na minha família. Não sei se Deus pode me perdoar, um dia. Não sei o que aconteceu na minha cabeça, por fazer uma coisa dessas. Estou arrependido, não por estar aqui, preso, mas pelo que eu fiz, que é uma coisa de animal. Queria pedir perdão às famílias, mas não consigo olhar na cara delas. Pedir perdão à minha família. Depois disso, já pensei muito em me matar. Minha intenção era me entregar e me matar, de tanta culpa que estou sentindo.

Essa culpa era acumulada desde 2009.
E eu acabei fazendo tudo de novo. Mas a Thaís, não se matei ela porque gostava dela, pela vida que ela estava levando, ou pela droga. Não sei.

Para você, era sujo o que elas faziam?
Eu achava. Na vida de casa que a Thaís tinha, de casada, com filho. Taxistas me diziam que levaram ela para se relacionar com outras pessoas. Eu dava conselho, nunca tinha tratado ela mal. Quando me dei conta do que tinha feito, parecia que o mundo estava caindo na minha cabeça.

A impressão que eu tenho é que o que aconteceu com Thaís pesou mais para você do que o que aconteceu com Tânia.
Pesou.

E sabe por que?
Pelo filho dela (choro).