De uma injustiça, nasceu a esperança

Em fevereiro de 2010, a representante comercial Kellen Roncetti, 37, passou por uma situação que jamais imaginaria ser possível em sua vida: foi parar em uma cadeia lotada, com outras duas colegas de trabalho, de onde só saiu no dia seguinte.

À época, ela – que é casada e mãe de uma menina de 7 anos  – trabalhava como líder do departamento feminino da loja Riachuelo, em um shopping de Vila Velha, quando acabou presa por ordem da delegada Maria de Fátima de Oliveira Gomes, que alegou ter sido destratada ao tentar trocar uma bermuda. A delegada foi afastada e sua conduta ainda está em investigação.

As nove horas que passou na prisão, no entanto,  renderam mais do que lembranças negativas. Depois que saiu de lá, não conseguiu esquecer o drama das presas que conheceu. Empenhou-se, então, em fazer algo por aquelas mulheres. Criou um projeto de ressocialização, batizado de “Presa na Moda”. É por meio dele que Kellen – que é formada em Moda e em Marketing – quer ajudar a mudar a realidade que viu de perto.

Ideia do projeto

Eu convivi com as presas em Tucum, ouvi suas histórias. Lá, tinha uma senhora que fazia roupinha de boneca. Parecia ter mais de 60 anos e foi presa por ter escondido a droga no sutiã para evitar que o neto fosse para a cadeia. Para passar o tempo, ela fazia as roupinhas. Quando saí de lá, pensei: “Preciso fazer alguma coisa por aquelas mulheres”.  Conversando com duas amigas, pensei em fazer algo no ramo da moda, no qual eu trabalho. Fiz faculdade nessa área e sou representante comercial de uma marca de calçados.

Desfiles

Passei a desenvolver projetos para usar a mão de obra delas para confeccionar roupas. Ensinei as meninas a desfilar e a se apresentar com as peças que elas mesmo fazem. Tenho planos de fechar parcerias com empresas para montar uma estação de trabalho dentro dos presídios e utilizar a mão de obra delas.

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Descoberta

Muitas daquelas mulheres tinham emprego antes. A maioria entrou  para o tráfico por necessidade, para sustentar um filho ou a mando do marido. Para elas, ter uma bucha de maconha em casa é tão banal quanto ter uma cafeteira. Alguém chega para elas e oferece um dinheiro para levarem droga até um lugar. É muito difícil não aceitar. Eu não consigo condenar essas pessoas.

Ajuda

A maioria está lá por tráfico de drogas e se envolve com esse mundo por causa de dinheiro, porque não têm perspectiva de vida. Uma outra disse que tinha emprego, que fazia limpeza em um shopping, mas ficou desempregada e como não tinha como sustentar os filhos, acabou no tráfico e foi presa.

Mudança

Depois que saí da cadeia passei a ver os direitos humanos de outra forma. Achava que eles só existiam para defender bandido. Também  pensava que bandido tinha tudo que morrer. O que mais forte eu tirei disso tudo foi ver o outro lado da vida do criminoso. Muita gente entrou nessa porque não teve uma oportunidade na vida.

A cadeia

A delegada mandou que nos colocassem na cela mais cheia. Ela ficou no corredor, esperando a gente entrar na cela. As presas gritavam: “Manda essas vagabundas pararem de roubar e traficar. Aqui está muito cheio!”. Ficamos em um local com 60 pessoas onde cabiam 6. Não tinha onde pisar.

Drama

Uma de nós dividiu uma cama com uma presa e eu e a outra dormimos no chão, num colchonete. Mas tem que pagar para ter cama e para ter espaço entre as camas. Quem não tem dinheiro, dorme num corredor, em um lençol. As mulheres viram que a gente tinha sofrido uma injustiça e ficaram indignadas.

Delegada

Nos três primeiros dias eu quis matar aquela mulher. Depois passou. Hoje, só não tenho mais vontade de entrar naquela loja.  Não traz uma lembrança boa. Nunca mais fui lá. A reencontrei no mesmo shopping, há cerca de três meses. Ela estava descendo a escada rolante, meio abatida. Preferi não fazer nada.

Indenização

Recebi uma indenização de R$ 100 mil. Financeiramente, acho que ela poderia me dar o Estado inteiro que ainda assim não seria o suficiente para pagar a humilhação que sofri. Não acho que ela deveria ir para a cadeia. Só penso que ela não tem capacidade de exercer autoridade sobre ninguém. Acho que ela deveria ser demitida do cargo que ocupa. Ela pode não ter recebido uma punição representativa da Justiça, mas da  sociedade teve. Sair para trabalhar e ir para a cadeia é algo que ninguém espera acontecer.