Da cadeia presos dominam tráfico e decidem quem vive e quem morre

Gravações telefônicas autorizadas pela Justiça revelam que ações do tráfico de drogas na Grande Vitória dependem de determinações de chefes de facções criminosas que estão presos. Eles têm informações atualizadas sobre as movimentações dos comparsas e, de dentro dos presídios, decidem, por exemplo, quem vive e quem morre.

As interceptações telefônicas foram feitas em 2011 e utilizadas pelo Grupo Especial de Trabalho Investigativo (Geti), do Ministério Público do Espírito Santo (MPES). Em uma das conversas, um preso chega a encomendar a morte de rivais para passar a controlar a venda de drogas.
Além de darem instruções a quem está livre para continuar tocando os “negócios”, os traficantes pedem que drogas sejam entregues a eles na prisão. Um deles justifica que precisa das pedras de crack para “facilitar a vida no presídio”, já que ele poderia trocar a droga por comodidades como travesseiro e lençol.

Lealdade

Em uma das interceptações, Kin Jun Pereira de Jesus, o Kimim, apontado pela polícia como um dos gerentes do tráfico de drogas na Ilha do Príncipe, aparece fazendo negociações e afirmando lealdade ao chefe do bando, Marquinhos Loiola, também apontado pela polícia como um dos chefes do tráfico de drogas no bairro. No áudio, Marquinhos conversa com Kim Jun pelo telefone celular:

Marcos Loiola: “Deixa eu te falar. É que às vezes tem, às vezes não tem. Às vezes a gente está pegando com os outros emprestado, você entendeu?”

Kim Jun: “Anham. Então é desse jeito aí, rapaz. A minha parada é uma só, se nós estamos juntos. Não existe falsidade aqui não, tá doido? O bagulho é reto. Falou? Hein, deixa eu te falar então: desce hoje a parada?”

Marcos Loiola: Vou mandar, vou mandar o negócio hoje aí.

Kim Jun: Então já é. Aquela mesma sequência, daquela ideia. Vou mandar o que faltou tudo, vou mandar tudo.

Marcos Loiola: Vou mandar (…) e cinquenta aí também.

Kim Jun: É. vou mandar isso aí também. Eu tirei R$ 300, mas falei pra menina: ‘tira aí um tiquinho do seu dinheiro do bonde, depois a gente conversa. Aí eu vou mandar tudo e aí você manda aquela sequência pra mim. Já é?

Marcos Loiola: Tá bom. Valeu então.

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Em outro ponto do diálogo, Kim Jun atualiza o comparsa sobre situações ocorridas do lado de fora do presídio:

Kim Jun: Meu parceiro, se liga só, vou dar um papo pra você. Eu nem participei da parada não. Eu era cliente. Os caras só faziam a parada se eu assinasse embaixo, entendeu? (…) Os caras tentaram matar ele umas três, quatro vezes. E eu sempre chegava junto: “não, deixa tranquilo”. Nesse dia, os caras me colocaram na parede, então eu não ia fechar com a parada errada.

‘Pés de árvore’

Em outra interceptação telefônica, o preso identificado como Edson Pina de Souza, o Tim – preso no Presídio de Segurança Máxima II, em Viana – combina com um comparsa a venda de drogas de dentro da cadeia e pergunta quantos “pés de árvores tem que cortar” no que ele chama de “lote a que tem direito”. Segundo a polícia, os “pés de árvores” são as pessoas marcadas para morrer para que o traficante possa assumir o controle do tráfico na área dos rivais.

Ao final da conversa, Tim ordena que o comparsa lhe passe “o nome de quem é o pé de árvore mais alto que tem que cortar”.

Outra conversa flagrada mostra dois detentos, presos em presídios diferentes, trocando informações sobre o “preço do radinho” – o valor para a entrada de um celular na cadeia. Um diz que varia de R$ 1 mil a R$ 3 mil. O outro diz que, na unidade onde está preso, cada aparelho chega a custar R$ 4 mil.

Na ‘Segurança Máxima’

O detento diz, ainda, que os aparelhos são compartilhados por vários presidiários e aproveita para pedir que o seu interlocutor dê um recado para outro preso: “Avisa ao Doidinho, a pedido do Patrik, que os caras da Ilha tomaram tudo lá no Aribiri”.

Em outro caso que foi alvo da escuta, Leandro Rodrigues Coutinho, o Lequinho Cara Fina – apontado como chefe do tráfico no Morro Estrela e detido no Penitenciária de Segurança Máxima II – aparece conversando com seus comparsas sobre o movimento de venda de drogas no morro.

Nas gravações, ele dá instruções ao “funcionário” e chega a pedir que mandem R$ 500 para outros presos, inclusive para que um dos detentos possa utilizar o dinheiro para comprar um presente para a filha.

Roncalli reconhece falhas

Depois que interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça mostraram que vários criminosos utilizam telefone celular de dentro das penitenciárias para comandar o tráfico de drogas do lado de fora dos presídios, o secretário estadual de Justiça, Angelo Roncalli, reconheceu a dificuldade de acabar com o problema e prometeu intensificar as revistas nas unidades prisionais.