Caso Alexandre Martins: testemunha diz que juiz revelou que Hartung tinha a intenção de matá-lo

O magistrado teria comentado com a personal trainer: “Quando ele me ofereceu segurança, eu já sabia que a intenção dele era me matar e por isso aceitei. Se resistisse, tiraria a responsabilidade deles.”

Muitas pessoas que acompanharam mais de perto o caso do juiz Alexandre de Castro Martins Filho, morto em março de 2003, em Vila Velha, já ouviram falar do depoimento da personal trainer Júlia Eugênia Fontoura. Aliás, a professora particular de ginástica do juiz morto chegou a ser considerada por muitos a testemunha mais importante do processo.Veja o vídeo com o depoimento da personal trainer.

No dia 24 de março de 2003, cerca de duas horas após a morte do juiz, a personal trainer é intimada a prestar depoimento na Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). No depoimento ao delegado Danilo Bahiense, Júlia conta os detalhes da morte do juiz, pois, no momento do crime – por volta das 8 horas daquela mesma manhã -, ela estava na janela da academia Belle Forme, de onde viu e ouviu os tiros trocados entre o magistrado e os criminosos Giliarde Ferreira de Souza e Odessi Martins da Silva Júnior, o Lumbrigão.

A parte do depoimento mais intrigante, no entanto, é a que Júlia revela que o juiz havia lhe confidenciado que o governador Paulo Hartung tinha a intenção de matá-lo. Hartung teria chamado Alexandre para uma reunião, dias antes do crime, para lhe oferecer reforço em sua segurança. Desconfiado da oferta do governador, o magistrado teria comentado com a personal trainer: “Quando ele me ofereceu segurança, eu já sabia que a intenção dele era me matar e por isso aceitei. Se resistisse, tiraria a responsabilidade deles. Se algo acontecesse comigo, eles ficariam livres. Poderiam dizer: ‘eu ofereci segurança e ele não aceitou’”, relatou Júlia na época do depoimento.

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Ainda no depoimento na DHPP, a personal trainer explicou que o juiz lhe dissera que possuía fitas que incriminavam Paulo Hartung e o ex-governador José Ignácio Ferreira, cujo teor relacionava-se a um esquema de corrupção na prefeitura de Vitória no período em que Hartung esteve à frente da prefeitura (1993 – 1996). Alexandre contara ainda à “confidente” que o governador Paulo Hartung sabia da existência das fitas. O magistrado mesmo dissera a Hartung que havia distribuído cópias da fita a dez pessoas.

Na sexta-feira (21) que antecedeu a morte do juiz, Alexandre teria comentado com a personal trainer que estava tudo sob controle. Quando ela pediu mais detalhes sobre o teor da fita e as histórias de ameaça, Alexandre a tranqüilizou dizendo que contaria a ela os detalhes em outro momento, mas procurou acalmá-la, dando a entender que as ameaças de morte já eram corriqueiras. “Disse que sabia lidar bem com isso”, recorda Júlia.

O depoimento da personal trainer, na verdade, nunca foi levado a sério pela Justiça. Havia muita gente empenhada em blindar o governador Paulo Hartung daquele que poderia vir a se tornar um dos maiores escândalos do Espírito Santo. Rapidamente, a hipótese de um possível envolvimento do governador Paulo Hartung na morte do juiz foi descartada. O curso dado às investigações, realizadas pela Polícia Civil, pelo Ministério Público Estadual e pelo próprio Judiciário, se encarregou de “riscar” o nome do governador da lista de suspeitos do crime.

O próprio pai do juiz, o advogado Alexandre Martins de Castro, isentou o governador de qualquer envolvimento na morte de seu filho. Ele disse ainda que não depositava fé no depoimento da personal trainer. Castro alegou que se Alexandre estivesse sob ameaça, ele seria o primeiro a saber.

No depoimento prestado em juízo pela personal trainer, no dia 4 de julho de 2003, Júlia volta a repetir os mesmos fatos relatados havia pouco mais de dois meses ao delegado Danilo Bahiense, na DHPP.

Quando inquirida sobre o episódio das ameaças contra o juiz, Júlia chega a respirar fundo e perguntar ao juiz se teria que repetir as mesmas coisas que já dissera na DHPP.

Novamente, desta vez em juízo, ela repete exatamente o mesmo depoimento que havia prestado na DHPP, como é possível conferir nos trechos editados no vídeo acima.

Fonte: Século Diário