Abandonados ou maltratados, eles nunca deixarão de amar seus filhos…

Aquele que foi seu herói um dia, te protegeu com um abraço apertado e guiou seu caminho. Aquela que realizou todos os seus desejos, te cobriu de carinhos e mostrou o certo e o errado da vida. Pais e mães, ora indispensáveis, tornam-se, para alguns, um peso difícil de carregar justamente na fatídica inversão de papeis, quando quem mais precisa de cuidados são eles: os idosos.

Vítimas de maus tratos, abandono ou fadados a viver só pela inexistência ou morte de parentes, 1.571 deles vivem atualmente em 40 abrigos, sem fins lucrativos, espalhados pelo Estado. O ambiente calmo e carregado de paz, encontrado em uma das instituições visitadas pela nossa reportagem, contrasta com um turbilhão de sentimentos que é relembrar, para alguns vovôs e vovós que estão ali, dos momentos de angústia que passaram antes de encontrar, atrás dos portões do asilo, um porto seguro.

“Ficava 15 dias sem tomar banho, com fraldão, na cama ainda. Um cunhado meu, que já morreu, um dia foi lá na porta do barraco onde eu ficava e disse: agora você tá com a vida que pediu a Deus. Mas Deus sabe o que faz. Hoje ele tá lá plantado e eu to aqui”.

Seu Antônio foi levado para o asilo por membros da pastoral da saúde e está há 12 anos na instituição.

Se recuperando de uma fratura na bacia, consequência de uma queda, dona Silma, 80 anos, tem um semblante tranquilo e uma voz mansa. Mãe superprotetora, engoliu a seco as ofensas morais e ameaças feitas pela nora e pela sogra do filho quando precisou sair de casa e morar com eles.

Debilitada pela idade, Silma era obrigada pela nora a lavar as próprias roupas, até as de cama. Para poupar o filho, fazia tudo sem transparecer que era pressionada a fazer aquilo. Vivia isolada em uma garagem. Seus pensamentos, por vezes altos, eram sua única companhia. Fato que gerava implicância por parte da nora.

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“Ela dizia que eu era doida pois eu ficava falando sozinha e baixinho. Um dia ela disse: no dia que você tiver falando baixinho eu vou chamar um táxi, vou jogar você dentro e levar lá pro HPM (Hospital da Polícia Militar). Porque lá você vai ficar falando baixinho e os soldados vão ficar te observando. Depois vão te levar para o Adalto Botelho”, relatou.

Incomodadas com a presença de dona Silma, mãe e filha iam minando o psicológico da idosa. “Um dia eu fugi da garagem, fui pro quarto e fechei a porta. Elas não queriam que a porta ficasse fechada. A mulher foi lá e disse assim: Ah, você tá aí, né. Saiu e bateu a porta com toda a força e disse: sua peste. O dia que eu ver você aqui no quarto eu vou te levar para fora pelos cabelos”

Os tormentos acabaram há 7 anos, quando o filho levou dona Silma para viver no Asilo de Vitória.

foto: Rodrigo Lira
Dona Silma
No limite das agressões, a aposentada denunciou o filho na delegacia

O tormento de ser maltratado por um familiar acabou para dona Silma e seu Antônio. Mas, por outro lado, muitos ainda convivem com o medo. É o caso de uma aposentada, de 65 anos, moradora de Joana D’arc, em Vitória. Cansada de sofrer agressões do filho, viciado em drogas, ela tomou coragem e procurou a Delegacia de Atendimento e Proteção às Pessoas Idosas. A decisão, segundo ela, foi mais dolorida do que qualquer tapa ou empurrão que já tenha levado do filho.

“Ele me xinga demais. Um dia desses ele me acordou com água, jogou bastante água no meu quarto, molhou a minha cama toda. Me ameaçou. Eu sou refém dele. Pra eu dormir eu tenho que ver se minha porta está realmente fechada”, relatou.

A polícia determinou uma medida protetiva para a dona de casa. Se o filho chegar perto dela ou fazer qualquer ameaça será preso. “Coração de mãe não é fácil, porque por mais que doa e que ele me maltrate, a gente não quer que o filho seja maltratado. O que está me doendo muito é saber que eu vou colocar ele pra fora de casa e saber que lá na rua ele não vai ter o que comer e beber”, desabafou.